Tudo começou com as cartas do
Pokémon, jogo de cartas o qual, nunca aprendi a jogar(é mesmo possível jogar
aquilo?). O meu único objetivo era tê-las a todas, fazer todas as minis
colecções existentes, ter as cartas bónus do cinema, mesmo ter os acessórios
ligados à prática do tal jogo que mais não era que uma grande cona complicada.
Eu tinha 6 anos e estava a induzir-me no mundo das colecções, pelo menos a
sério, porque coleccionar cromos é para cromos e até aos 6 eu fui um cromo
desses, no entanto, este jovem coleccionador poderia estar a vestir a pele do
diabo. To be continued no parágrafo a seguir.
Eu era um rapaz
baixinho, pacato, tinha medo dos gordos e dos mais velhos, e seria
em média aproximadamente o 17º a ser escolhido em 25(rapazes e raparigas
claro) para praticar seja que desporto for. Mesmo quando o professor apontava
amigos meus para serem agências de rating do meu nível de coolness e
masculinidade(porque os homens são bons no desporto sempre), os lugares entre o
14º e o 20º não me escapavam, por muito que o meu olhar desgraçado e dorido não
os movesse para me escolherem. Para mim
era incompreensível que até gordos fossem escolhidos à minha frente, isto
porque muitas vezes jogávamos ao mata e as probabilidades de se acertar num
gordo são maiores devido ao espaço que ocupam, do que acertar no pequeno
António. No entanto, eu não era o pequeno António, mas sim o Little Tony…
Eu não era o único coleccionador de cartas de Pokémons na minha turma, recordo ver grandes cartas como o Blaistoise, Golem e Gengar, cartas só possível de sair em booster(pacote com 7 cartas). Por muito interessante que uma ou duas cartas raras fosse de ver, uma andorinha não faz a primavera e as cartas deles não faziam uma grande colecção, distantes da primavera que eu fazia crescer. Num intervalo à hora de almoço fui à sala buscar alguma coisa, quando me deparo com a colecção do João em cima da mesa. Poderia ser bastante descritivo no que aconteceu depois desse momento, mas na verdade não há muito para descrever, porque eu com 6 anos sabia que eu estava sozinho na sala, ninguém sabia que tinha ido à sala e eu só lhe levaria a Chancey, sabendo que uma carta desta raridade merecia estar ao pé de outras relíquias e não de cartas comuns e energias. Foi simplesmente oportuno, levei-lhe a carta, o crime perfeito.*For the record, o João nunca soube que perdeu a Chancey porque não lhe ligava, portanto ainda bem que a levei porque eu dei-lhe mais amor*
Seguiram-se mais idas à sala no intervalo, provavelmente umas 5 ou 6, sempre colhendo as raridades de cada pseudo-colecção. Eu estava a ficar bom naquilo. Ninguém desconfiaria do indefeso António, filho de uma educadora e de um professor, gago quando não calado, tímido e trapalhão socialmente. Eu estava no meu auge, é possível que tenha mesmo tido todas(ou quase todas) as cartas raras das primeiras edições, devido a este pequeno expediente. Ouviam-se boatos que os miúdos do 4º ano teriam ido à nossa sala roubar as nossas cartas. Sim as nossas, porque o pequeno António também tinha perdido um Charizard e um Gyarados tal como ele havia contado aos seus compinchas. Ninguém fez queixas à professora, porque no fundo ninguém queria saber daquilo tanto quanto eu, porque eu era uma criança, mas já vivia aquela coleção, os outros eram simplesmente vítimas da sublimidade do marketing da empresa do Pókemon no inicio dos ’00.
A adrenalina que aqueles furtos me traziam eram quase como injeções de auto-confiança e provas para superar o medo de estar a fazer algo errado, mas como havia já dito no texto, eu levei todo o ouro da mina. Numa sexta-feira o Duarte traz o novo deck que comprou e rapidamente quis fazer alarido e popularidade com ele. Era o deck psíquico/elétrico, básico, nada de mais, excetuando o vistoso e sempre magnânimo Mewtwo. Eu já tinha o Mewtwo, não era claramente algo que me interessasse assim tanto, se bem que, lá está, era um Mewtwo, e para o Little Tony era just another day at work quando ao intervalo ele larapiou o Mewtwo que passou a ser Mewmine.
A tarde passou bem, a bolinha verde era um sinal claro que mais uma vez tinha feito o meu trabalho na sombra e com sucesso, nada surpreendente vindo do Little Tony. Com a classe terminada vou para a rua esperar algum dos responsáveis pelo meu trajeto seguro até casa, quando isto oiço:”Oh puto anda cá!”. Era o irmão do Duarte, míudo do 4º ano, cara de rufia, jogador de futebol reconhecido pelo meio escolar e consta que até já beija a namorada à frente dos pais. Eu sabia o que significa este oh puto anda cá, estava apavorado de medo, se ele fosse muito gordo correria para não me apanhar, infelizmente não era o caso. Mas eu não estava sozinho, eu tinha o Little Tony, que não é só um ladrão, é também um bom gestor de crise, um diplomata, que não vai assumir um crime sob qualquer pressão. They’ll never bring me down.
Acusou-me desde logo de ter roubado a carta, após o irmão ter apresentado queixa pela falta da mesma. Tinha-me visto a entrar na sala de aula à hora do intervalo e alertou-me ainda para o facto daquele baralho ser dele, coisa que desde logo não acreditei. Neguei e comecei a chorar, foi a decisão mais sensata e inteligente que um pequeno mafioso de 6 anos pode fazer perante um colosso daqueles, porque no contexto, eu ainda era o pequeno António que nunca faria uma trafulhice como roubar e só choraria caso me sentisse realmente injustiçado, para não falar que enquanto tivesse a chorar ele não me iria bater e que se continuasse a chorar por mais 5 minutos, algum parente me iria salvar e até mesmo castigar moralmente este miúdo que me acusara de ter roubado.
Cada segundo demorava horas a passar, quando ele pouco tempo depois do meu começo de choro me diz que me vai verificar os bolsos e a mochila. Era o mínimo que se esperava de um pré-adolescente, apesar de rufia, ele sabia que se a tivesse roubado a carta a teria comigo. Acertou, eu tinha mesmo a carta comigo, mas ele nunca iria achá-la, porque o seu chapéu da Fubu não lhe permitia estar familiarizado com o fecho interior de muitos modelos de calças da Petit Patapon. Ainda um pouco nervoso, o Little Tony percebeu que a jogada de fazer uma rusga com insucesso provaria totalmente a sua inocência ao mesmo tempo, que culparia o irmão de Duarte de ter coagido o indefeso garoto, que era eu.
Prontamente a minha mãe chegou para assegurar o tal transporte seguro até casa. O irmão do Duarte com medo de uma penalização por um ser ainda mais colossal que ele, uma mãe, afastou-se e a partir desse dia todos os dias me falou na escola. Graças à peripécia com o irmão do Duarte, passei inclusive a pertencer ao clube restrito de alunos do 1ºano que poderiam pisar o campo de futebol de asfalto, onde reinavam os craques do 3º e 4º ano, se bem que este passe só foi válido até à minha segunda presença, vez em que por ordem da minha falta de técnica e atleticíssimo fui bravamente humilhado vezes sem conta, o que fez com que o irmão do Duarte não quisesse voltar a contar com o meu préstimo para a sua equipa.
Depois deste acontecimento a minha vida procedeu normalmente no meio escolar, senti que a minha vida de crime já não compensava mais. Sentia-me como um mafioso reformado a disfrutar da vida justa e sem crime. Hoje em dia sei que procedi mal, mas parte de mim acha que este pequeno mês e meio de Little Tony, foram fulcrais para o meu ganho de autoconfiança e para moldar uma personalidade mais viva e mais forte. Era claramente um daqueles miúdos especiais que com 6 anos não se conseguia integrar num meio escolar, devido às grande diferenças de interesses que existia entre eu e os meus colegas. Este acto de ciganagem aproximou-me do mundo real, onde se rouba, anda-se à porrada, fala-se mal dos outros e vota-se no Zé Maria para vencer o Big Brother. “Humanizou-me”.
Eu não era o único coleccionador de cartas de Pokémons na minha turma, recordo ver grandes cartas como o Blaistoise, Golem e Gengar, cartas só possível de sair em booster(pacote com 7 cartas). Por muito interessante que uma ou duas cartas raras fosse de ver, uma andorinha não faz a primavera e as cartas deles não faziam uma grande colecção, distantes da primavera que eu fazia crescer. Num intervalo à hora de almoço fui à sala buscar alguma coisa, quando me deparo com a colecção do João em cima da mesa. Poderia ser bastante descritivo no que aconteceu depois desse momento, mas na verdade não há muito para descrever, porque eu com 6 anos sabia que eu estava sozinho na sala, ninguém sabia que tinha ido à sala e eu só lhe levaria a Chancey, sabendo que uma carta desta raridade merecia estar ao pé de outras relíquias e não de cartas comuns e energias. Foi simplesmente oportuno, levei-lhe a carta, o crime perfeito.*For the record, o João nunca soube que perdeu a Chancey porque não lhe ligava, portanto ainda bem que a levei porque eu dei-lhe mais amor*
Seguiram-se mais idas à sala no intervalo, provavelmente umas 5 ou 6, sempre colhendo as raridades de cada pseudo-colecção. Eu estava a ficar bom naquilo. Ninguém desconfiaria do indefeso António, filho de uma educadora e de um professor, gago quando não calado, tímido e trapalhão socialmente. Eu estava no meu auge, é possível que tenha mesmo tido todas(ou quase todas) as cartas raras das primeiras edições, devido a este pequeno expediente. Ouviam-se boatos que os miúdos do 4º ano teriam ido à nossa sala roubar as nossas cartas. Sim as nossas, porque o pequeno António também tinha perdido um Charizard e um Gyarados tal como ele havia contado aos seus compinchas. Ninguém fez queixas à professora, porque no fundo ninguém queria saber daquilo tanto quanto eu, porque eu era uma criança, mas já vivia aquela coleção, os outros eram simplesmente vítimas da sublimidade do marketing da empresa do Pókemon no inicio dos ’00.
A adrenalina que aqueles furtos me traziam eram quase como injeções de auto-confiança e provas para superar o medo de estar a fazer algo errado, mas como havia já dito no texto, eu levei todo o ouro da mina. Numa sexta-feira o Duarte traz o novo deck que comprou e rapidamente quis fazer alarido e popularidade com ele. Era o deck psíquico/elétrico, básico, nada de mais, excetuando o vistoso e sempre magnânimo Mewtwo. Eu já tinha o Mewtwo, não era claramente algo que me interessasse assim tanto, se bem que, lá está, era um Mewtwo, e para o Little Tony era just another day at work quando ao intervalo ele larapiou o Mewtwo que passou a ser Mewmine.
A tarde passou bem, a bolinha verde era um sinal claro que mais uma vez tinha feito o meu trabalho na sombra e com sucesso, nada surpreendente vindo do Little Tony. Com a classe terminada vou para a rua esperar algum dos responsáveis pelo meu trajeto seguro até casa, quando isto oiço:”Oh puto anda cá!”. Era o irmão do Duarte, míudo do 4º ano, cara de rufia, jogador de futebol reconhecido pelo meio escolar e consta que até já beija a namorada à frente dos pais. Eu sabia o que significa este oh puto anda cá, estava apavorado de medo, se ele fosse muito gordo correria para não me apanhar, infelizmente não era o caso. Mas eu não estava sozinho, eu tinha o Little Tony, que não é só um ladrão, é também um bom gestor de crise, um diplomata, que não vai assumir um crime sob qualquer pressão. They’ll never bring me down.
Acusou-me desde logo de ter roubado a carta, após o irmão ter apresentado queixa pela falta da mesma. Tinha-me visto a entrar na sala de aula à hora do intervalo e alertou-me ainda para o facto daquele baralho ser dele, coisa que desde logo não acreditei. Neguei e comecei a chorar, foi a decisão mais sensata e inteligente que um pequeno mafioso de 6 anos pode fazer perante um colosso daqueles, porque no contexto, eu ainda era o pequeno António que nunca faria uma trafulhice como roubar e só choraria caso me sentisse realmente injustiçado, para não falar que enquanto tivesse a chorar ele não me iria bater e que se continuasse a chorar por mais 5 minutos, algum parente me iria salvar e até mesmo castigar moralmente este miúdo que me acusara de ter roubado.
Cada segundo demorava horas a passar, quando ele pouco tempo depois do meu começo de choro me diz que me vai verificar os bolsos e a mochila. Era o mínimo que se esperava de um pré-adolescente, apesar de rufia, ele sabia que se a tivesse roubado a carta a teria comigo. Acertou, eu tinha mesmo a carta comigo, mas ele nunca iria achá-la, porque o seu chapéu da Fubu não lhe permitia estar familiarizado com o fecho interior de muitos modelos de calças da Petit Patapon. Ainda um pouco nervoso, o Little Tony percebeu que a jogada de fazer uma rusga com insucesso provaria totalmente a sua inocência ao mesmo tempo, que culparia o irmão de Duarte de ter coagido o indefeso garoto, que era eu.
Prontamente a minha mãe chegou para assegurar o tal transporte seguro até casa. O irmão do Duarte com medo de uma penalização por um ser ainda mais colossal que ele, uma mãe, afastou-se e a partir desse dia todos os dias me falou na escola. Graças à peripécia com o irmão do Duarte, passei inclusive a pertencer ao clube restrito de alunos do 1ºano que poderiam pisar o campo de futebol de asfalto, onde reinavam os craques do 3º e 4º ano, se bem que este passe só foi válido até à minha segunda presença, vez em que por ordem da minha falta de técnica e atleticíssimo fui bravamente humilhado vezes sem conta, o que fez com que o irmão do Duarte não quisesse voltar a contar com o meu préstimo para a sua equipa.
Depois deste acontecimento a minha vida procedeu normalmente no meio escolar, senti que a minha vida de crime já não compensava mais. Sentia-me como um mafioso reformado a disfrutar da vida justa e sem crime. Hoje em dia sei que procedi mal, mas parte de mim acha que este pequeno mês e meio de Little Tony, foram fulcrais para o meu ganho de autoconfiança e para moldar uma personalidade mais viva e mais forte. Era claramente um daqueles miúdos especiais que com 6 anos não se conseguia integrar num meio escolar, devido às grande diferenças de interesses que existia entre eu e os meus colegas. Este acto de ciganagem aproximou-me do mundo real, onde se rouba, anda-se à porrada, fala-se mal dos outros e vota-se no Zé Maria para vencer o Big Brother. “Humanizou-me”.
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